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sexta-feira, 31 de julho de 2015

Esperamos sempre por um milagre



Não existe uma pessoa neste mundão que pelo menos, em uma única vez, não tenha esperado por um milagre. Aquela informação que falta para responder uma pergunta em um prova, por aquele tempo a mais para chegar em um compromisso importante, por um trânsito melhor, pela saúde de um ou a volta de outro. Motivos para pedir, não faltam e também não falta fé. Seja São Judas Tadeu, Santo Expedito, Santa Edwiges, Preto Velho, Oxóssi, Ogum, Jesus, Buda ou Maomé.


Milagre, que no latim é "miraculum", quer dizer maravilha, coisa extraordinária. Seguindo este raciocínio, quantos milagres você é capaz de ver em sua vida? É maravilhoso um belo dia de primavera com suas flores, o sol brilhante e toda a alegria que esta estação nos oferece. É extraordinária a dedicação de uma mãe a seu filho e seu amor incondicional. É espetacular a capacidade de reinventar o mundo que as crianças tem. A cada dia estamos cercados de milagres sem ao menos nos darmos conta disso. Você domina uma, duas ou mais línguas; faz cálculos incríveis; entende sobre saúde, sobre as estrelas, sobre os animais. Já podemos voar, viajar sobre as águas e fazer vinho até onde já faltou até água. Nossa capacidade é infinita!

Não sou um herege e nem mesmo cético. Tenho a minha fé e muitos milagres em minha vida. Porém o que eu aprendi é que precisamos, sim!, buscar e não pedir por outros milagres. Que precisamos ser os protagonistas de nossas ações, rompendo sempre nossos limites e depois olhando para trás e para o lado reconhecendo que, ao lado dos outros, muitos milagres foram conquistados.

Não existe milagre que se peça para nossa vida, milagre é a própria vida.




Cael Soares

13/11/2013

terça-feira, 13 de março de 2012

A alma encantadora de tudo


Uma vez em um livro, do magnífico Paulo Barreto, conhecido como joão do Rio, encantei-me pela ideia de um flâneur passear pelas ruas da cidade e enxergar(não vê) todas as coisas, valorizando o detalhe mais vão. 

O flâneur não está preso a rotina exaustiva do cotidiano, ele simplesmente flana... Ele se afasta do objeto para melhor observá-lo. Ele dialoga com a alma de tudo e de todos. Este estado de alheamento libertava a sua própria alma.

Esse distanciamento é capaz de conduzir a um estado de leveza tão grande que nos blinda contra a má vontade alheia, fazendo nosso olhar e nossos outros sentidos sintonizarem em coisas elevadas. Em vez de testas franzidas, passamos a observar sorrisos sinceros; no lugar de maldizer, escutamos gentilezas e agradecimentos. Se antes era um tapa, agora é um afago; e o que era odor, agora é o perfume da tranquilidade de que seu ego está contido e que ninguém é capaz de fazê-lo sair do seu caminho poeticamente descaminhado. 

Como diz Manoel de Barro, "sou um apanhador de desperdícios" e minha alma flâneur caminha por rostos, sorrisos e olhares, essas são as minhas ruas e as palavras de meu texto. As roseiras têm espinhos, mas ficamos admirando a rosa; a chama queima, mas admiramos o seu brilho... Assim são as pessoas, de muito perto podemos nos ferir ou nos queimar, porém não é motivo para não reconhecermos suas qualidades ou seu brilho. Isso é libertação, o resto é mágoa, medo e prisão.

Minha alma flana, por ruas, por olhos e sorrisos; pois há muito perdeu o medo do fogo e dos espinhos...




sexta-feira, 9 de março de 2012

Prosa: Livros...

Confesso, sou compulsivo quando se trata de livros. Sou ciumento, quero-os perto, tocá-lo, lê-los, cheirá-los. O cheiro de livro novo é um doce perfume em minhas narinas, o do livro velho também, se não fosse minha alergia. Os livros são as minhas crianças que querem sempre brincar comigo. Viajamos pelo mar, pelo espaço pela terra. Sou o rei, o detetive, o amante ou o assustado camponês diante de um vampiro. Cada um é meu passaporte para uma grande viagem.

Adquirir um livro é como um namoro. Primeiro é o contato visual. Depois a análise dos detalhes. O primeiro encontro. O encantamento das primeiras páginas e enfim a conquista. É, em relação ao amor, minha face mais promíscua. Tento dedicar-me a todos, emobora uns me prendam mais que outros. Todos ao seu tempo têm minha atenção, afinal sou um bom amante.

Nossa vida começa com um livro, o de registro de nascimento; passa por outros como os de registro de casamento; para terminar no de óbito. Fazemos também parte de um livro. Somos personagens de um autor chamado tempo. Quem me dera ter o poder de mostrar às pessoas a importância de uma boa leitura. Muito mais do que conhecimento, muito mais do que informações, é a possibilidade de se olhar no espelho e enxergar o que passa em sua alma. É a melhor forma de viver as mais variadas e impossíveis aventuras e de se eternizar nesta nossa vida dura.

Sou compulsivo com livros, como confessei, mas sinto também que eles são compulsivos comigo. Eu, meu mundo e minhas aventuras pertencemos a eles. Estou em cada página de meus livros.

Minha aluna Karol Martins enviou-me este vídeo, com a mais doce comparação que eu poderia receber... Quem me dera ser o Sr. Morris Lessmore...




Prosa: Herói...


Ser professor tem suas vantagens e coloco como a principal a possibilidade de, diante de um tema, enxergar a visão de mundo dos outros. Sou um homem de outro milênio, de outras décadas e já assisti as transformações do mundo e principalmente de mim mesmo. Apenas a necessidade de se ter um herói parece permanecer.

Não importa o tempo e nem a localização, o herói povoa o imaginário do ser humano em algum momento da vida. Meu primeiro grande herói foi meu avô. Sr. Miguel era caçador, tinha uma barbona branca e uma cara de bravo. Foi quem me ensinou a pescar, quem me levava ao Mineirão e quem ocupou uma lacuna deixada pela morte prematura de meu pai. Porém ela também se foi e em meus 10 anos fui encontrar outro herói, agora literário, Michel Ardan, protagonista da obra de Júlio Verne "Da Terra à Lua". Mas eu era menino...

Em sala de aula a resposta parece não conseguir sair, quando pergunto "Quem é o seu herói". Uma análise rápida nos leva a uma crise de valores. Em um mundo de coisas efêmeras o herói sucumbiu à inconstância de virtudes valorizadas e rejeitadas. Um rapaz que luta para defender um mendigo aparece na TV em uma cama de hospital, se recuperando, por cerca de dois minutos e falam de ato heroico, porém logo após mostram rapazes e moças deitados à beira da piscina falando besterias e também são chamados de heróis. Não há lógica que ajude.

O conceito se perdeu, mas meus olhos de flâneur ainda enxergam as grandes façanhas de pequenos heróis desconhecidos. Empurrando carrinhos de entulho, vendendo pipoca, lutando contra o sono para aprender aquela matéria, gastando seu corpo, sua mente e seu espírito em suas epopeias diárias.

Meu reality show eu assisto pela janela do ônibus, o paradão é diário, onde não existe escolha de líder ou anjo para ajudar, e cada herói, anônimo e exaurido, luta para sobreviver.

Agora, aproveite, dê uma espiadinha e tente me responder:

"Que tipo de herói é você?"


Prosa: Novos Horizontes...


Depois de grandes batalhas você se vê em alguns questionamentos. A batalha valeu a pena? O resultado valeu a pena? As respostas não conseguimos dar de imediato, sem cair no risco do calor das emoções. Mas uma coisa é certa, uma transformação ocorreu e o mundo, suas relações e seus parâmetros agora são analisados por outro filtro. Como disse Cazuza: "O meu futuro é duvidoso"... Por enquanto esperarei o nascer do dia e o início de uma nova jornada. 

O trecho da música (Engenheiros do Hawaii) que dedico a vocês serve de mantra para muitos momentos de minha vida:

Novos horizontes
Se não for isso, o que será?
Quem constrói a ponte
Não conhece o lado de lá
Quero explodir as grades
E voar
Não tenho pra onde ir
Mas não quero ficar
Suspender a queda livre
Libertar
O que não tem fim sempre acaba assim


Prosa: Sonhar...


Uma vez um menino entrou pela primeira vez em uma biblioteca e pegou emprestado um livro. A história era de uma viagem espacial para conquistar a lua. Ele não teve dúvida, não estava ali uma história para ser lida, mas uma vida para ser escolhida. O padrinho da escolha foi Júlio Verne e seu livro "Da terra à lua". 

O menino sonhou e em seu terreiro com um balanço e cobertas velhas fez seu foguete. O capacete era um saco de papel com abertura para os olhos. Os controles parte de uma vassoura e caixa de ovos virada com o fundo colorido com giz de cera. 

O jovem astronauta sonhou e voou. Foi mais longe que qualquer homem havia chegado. Conheceu países, planetas, galáxias e os limites ilimitados do universo. Não havia limite para sua Argos imaginária. 

O menino cresceu, o terreiro não existe mais, muito menos o antigo balanço. Nem tão pouco o menino conseguiu voar em uma espaçonave de verdade. Mas quem precisa de espaçonave quando se tem livros e imaginação? O homem de hoje é a nave do menino e o menino é o eterno sonho do homem. 

As estrelas continuam lá no céu, mas se você observar bem, toda noite o homem está lá em cima, com o combustível da imaginação, fazendo o menino mais uma vez passear no espaço...


Prosa: O nada...


É engraçado que quando estamos tristes ou amargurados é o nada que buscamos. Um estado de semi-esquecimento, anestésico e anulador. O nada, por mais paradoxalmente possa parecer, é o que procuramos para ocupar os espaços deixados, as chagas abertas que achamos não cicatrizar. E o nada aparece, nos preenche e por algum tempo recuperamos o equilíbrio e a caminhada.

Tudo, hoje em dia, tem desculpa,
tudo, hoje em dia, aborrece,
tudo, hoje em dia, machuca,
tudo, hoje em dia, irrita,
tudo, hoje em dia, pode matar.

Por isso persigo o nada, por estar cheio de tudo...

Pode ser que esta música diga tudo... ou, quem sabe, nada.