terça-feira, 27 de agosto de 2019

POEMA: EU SONHO

Pouco sonho em vermelho
sonho vermelho, de Kandisky

Eu sonho
com os olhares perdidos da cidade
com o ressonar da moça na lotação
com a criança que desenha o mundo
com o menino brincando de avião

Eu sonho
com o aposentado na fila
com o doente que aguarda socorro
com o condenado na mira
com a noite que chove no morro

Eu sonho
com aquele que se sente fraco
com outro que se diz forte
com aquele que espera a vida
como que que encontra a morte.

Eu sonho!

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Cabra marcado para morrer

Autorretrato de Gustave Courbet



Tem dia que parece que tudo padeceu
Que o sol não quis brilhar para mim
E nem para os outros quis deixar o riso meu

Tem dia que a companhia é mais triste que a solidão
Que o céu fica nublado somente sobre mim
E nem a lua dos loucos me joga mais seu clarão

Tem dia que a cachaça desce ainda mais amarga
Para levar seu dia-a-dia de máquinas
Levando nas costas a desumanizadora carga.

Tem dia que a dor está obstinada a te vencer
E este dia, meus caros, este dia
É que o cabra escolhe para morrer.

Cael Soares

SURVIVE


When I wanted to walk
They cut my legs
So learn to fly
When I wanted to be free
They imprisoned me
So learn to sing

When I wanted to sing my freedom
They silence my song
So learn to dream

When they wanted to destroy my dream
They killed me
So I survived in my poetry


Cael Soares

A Picture, a world




Resultado de imagem para deficiente que teve sanfona roubada ganha novo instrumento
https://www.otempo.com.br/super-noticia/deficiente-que-teve-sanfona-roubada-ganha-novo-instrumento-1.1485438

I see a man
He is a sad man or his happiness doesn’t exist in this world
I see other men too
They don’t see the sad man
They don’t want to see
They are not interest

The modern world doesn’t have eyes for a sad man
But the sad man doesn’t see people too
He can’t see this world
The world that he sees is another
He is blind
He is playing music from his world
His fingers press the accordion’s key
Is that play the own soul in melody?

It’s a sad song of a sad man
The people be afraid to see their reflect on this man
He is the mirror of humanity
This is a sad world that doesn’t want to listen to this song,
It’s music

Cael Soares


terça-feira, 23 de maio de 2017

O trapezista



Queria ser na vida um equilibrista
Pender suavemente entre razão e emoção
Ter a estabilidade e confiança nos passo
E segurança da rede que me protege do chão

Mas o mundo assim me fez poeta
Vassalo do coração e irmão da tristeza
Sou o Corifeu desafinado da ode à alegria
E a nuvem que apaga as cores do arco-íris

Nada do que leio, ouço, bebo ou vejo
Dá-me a sensação de ser necessário
Sou aquele que está de malas prontas
Esperando o fim da ilusão para partir

Sou um trapezista de olhos vendados
Que se lança no ar em busca de outras mãos
Sabendo que outros trapézios estão vazios
E que não há redes que me proteja do chão

                                                           

Cael Soares

Tela: Waldemiro de Deus, "O trapezista"

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Intervalo doloroso


Intervalo doloroso

Sou vassalo dos meus sentimentos
A razão há muito se escravizou
Os dias me doem como açoites
As noites como longos enforcamentos
Não tenho mais o sabor das cores
O mundo é monocromático em mim
Uma nuvem pousou na minha esperança
E meus sonhos nunca mais puderam voar
Estou na vida como um náufrago em mar aberto
As desilusões são ondas que arrebentam sobre mim
A fé foi uma boia que rapidamente se esvaziou
Os meus erros são uma âncora presa aos meus pés
A felicidade é um farol que desaparece no horizonte
Sei que de sua luz não é feito o meu caminho
Sou daqueles, que por cansaço, partem para escuridão
Sabendo que um dia todos serão esquecidos.
Cael Soares

Tela: "Tempestade", do pintor romântico britânico Wiliam Turner.

Se minha alma fosse uma pintura


Se minha alma fosse uma pintura
Seus traços seriam feitos por Gericault
Não tem o aprumo das formas de Ticiano
Nunca fui muito bom em equilíbrio e razão.

Minha alma foi um processo longo
Retorcimento constante de emoção
Deformação friamente construída
E a obscuridade de quem nasceu hermético.

O meu sofrer tem o silêncio de árvore
Que, os seus galhos, zéfiro esqueceu de soprar
Tronco marcado por inúmeras promessas de amor
E copa muito distante para poder alcançar.

Se a vida foi sempre outonos e invernos em mim
Se minhas folhas verdes perderam a cor é caíram
O meu último ato é o sacrifício de devolver à terra
Tudo o que inutilmente investiu em mim.
Cael Soares

Tela: "Um Náufrago", de Gericault.

Queria Ordenar ao meu tempo que pare



Queria Ordenar ao meu tempo que pare
Viver é um imenso tormento fora e dentro de mim
Minha alma não é do tamanho do que esperam que seja
Mas do tamanho de tudo que me faz sentir assim
Nas ruas por onde passo só vejo solidão e consumo
Corações despovoado de sentimentos, compras de liquidação
Uma velha canção tenta me encorajar dizendo "Hang on"
Mortos-vivos que caminham apressados em outra direção
Esse é o mundo para o qual não me preparei
Já tentei ser alegre, me encontrei como poeta banal
As palavras são materialização dos sentimentos
E sonho subir nos telhados e ser o violinista de Chagall
Cael Soares

Tela: O violinista, de Marc Chagall

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Arte de ouvir



É preciso aprender a ouvir. Acho que essa sempre foi minha maior escola. Sou um colecionador de histórias. Elas foram minha bússola para caminhar nesta tão difícil estrada que é o viver. Meus professores foram pessoas com as quais convivi e ainda convivo. Meus avós, minha mãe, meu padastro e meus irmãos, minha namorada e meus filhos, meus mestres na escola, os escritores e poetas, meus colegas de trabalho, meus alunos e todas as pessoas que me dão a honra de poder ouvi-las. Não sou doutor ou mestre acadêmico, minha formação cresceu nas ruas. sou feliz por isso! Hoje ninguém tem tempo para ouvir o outro, ou interesse.


O mundo vai ficando menor e menos encantador porque ninguém que romper seus próprios limites. Os escritores e poetas estão morrendo; aos artistas ninguém se dá o prazer de observá-los; a lua ilumina a noite sem ninguém mais para admirá-la; o sol nasce e se põe sem ninguém para observá-lo; as pessoas expõem sua alma, mas as pessoas só se importam com sua aparência; o mundo e todas as coisas nos fala o tempo todo.


Um dia me disseram que eu vejo, ouço e falo com olhos, ouvido e boca de poeta, mas o mundo é muito cruel e devora pessoas como eu. Nunca tive do mundo nada além do que coisa para contemplá-lo, os homens sim, que sempre foram muito cruéis. Mas as histórias contadas por alguns homens e mulheres sempre me curaram e me curam da crueldade de parte da humanidade e realimentam minhas utopias. Aprendi com Eduardo Galeano que as utopias são como o horizonte, quando mais caminhamos na sua direção, mais elas se afastam.


Que a vida me permita caminhar até o fim de meus dias!


terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Pela chegada do meu aniversário




[Para meus alunos que junto aos meus filhos são as sementes que mais deposito minha esperança]





A vida é um processo interessante tanto física, biológica e poeticamente. Começamos como sementes, cheios de possibilidades e vida. Somos um projeto que pode ser bem ao malsucedido pela perspectiva humana ou sociológica. Ao mesmo tempo que não tínhamos nada, nem responsabilidade, nem autonomia, nem segurança; tínhamos o mundo e suas possibilidades. Ser bombeiro, líder de uma banda de rock, ser médico, ser policial e ser pirata, ser marinheiro e ser astronauta estava ao nosso alcance de forma equidistante. Mas um dia escolhemos a bola no lugar do Lego, a espada no lugar do livro, o avião no lugar do barco e de repente toda nossa história começa a ter um enredo. Deve ser assim no universo quando um astro que surge, uma trajetória que muda e tudo é transformado. Não creio em coincidência, nem em destino, creio nos fatos, eles existem.

Nosso desenvolvimento é difícil e demorado. Cada um tem seu tempo e passamos das possibilidades para as cobranças. Estas também podem ser um fato que muda toda nossa rota. As vezes são tão fortes que é impossível não se vergar. Outras vezes estamos tão firmes que nada é capaz de mudar nossa opinião ou nosso caminho, seja para melhor ou para pior. Mudanças biológicas ocorrem dentro de nós. Já não temos humor, mas um ciclone que parte da alegria para tristeza num piscar de olhos. No entanto chega a época de florir e começamos a nos preocupar com a aparência. É a época de encantar e ser encantado. Mas também a época das primeiras lágrimas que pode ser como o sereno da manhã que acaba logo ou uma tempestade torrencial. Muitos não suportaram essa época de águas, pois não se enraizaram na vida suficientemente. Mas aqueles que suportam ficam mais fortes e capazes de enfrentar qualquer intempere. 

Enfim crescemos e nessa hora já somos fruto de todas as experiências que vivemos. Somos o melhor que nossa vida nos formou. O processo de amadurecimento é contínuo e ainda nesse momento aprendemos com o mundo. Em nós está todo conhecimento adquirido, porém é nossa fase mais frágil, onde palavras e ações nos laceram. Somos um peso para os galhos, lentos em nosso processo, tememos o vento, a chuva, o frio e o excesso de sol. Precisamos de cuidado. Mas enfim nos desprendemos da árvore vida e o que fica são as nossas sementes que depois de nossa passagem são o melhor que podemos deixar para continuarem nosso legado enfrentando todas pedras e espinhos. 


Cael Soares

domingo, 13 de dezembro de 2015

BR 381



Gosto da viagem noturna,
pela janela do ônibus a ausência de horizonte consegue me impedir de pensar.
As árvores passam como grandes fantasmas iluminadas pelos faróis dos automóveis.
Hoje choveu, pingos d'água grudaram na janela e brilhavam 
como quisessem ocupar o lugar das estrelas que neste choroso céu não apareceram.
As pessoas dormem. Elas estão cansadas da viagem ou da vida.
Eu olho pela janela, já estive cansado como elas, 
mas sei que viver é algo maior e mais sinuoso que esta estrada.
E que preciso seguir mesmo sem destino, 
mesmo sem paradas,
até que eu encontre alguma luz para este mistério que é a vida
ou simplesmente 
as luzes da cidade.


Cael Soares

sexta-feira, 31 de julho de 2015

A espera de uma vida



Em uma certa tarde de outono, as folhas das árvores, já sem aquele verde que coloria a paisagem, brigavam contra o vento para se sustentarem nos galhos, se mantendo ligadas à árvore e assim, ainda, fazendo parte de algo, fazendo parte da vida.

Assistindo a toda aquela luta das folhas contra o impiedoso vento, estava um homem, sentado em um banco da praça, em frente às árvores. O vento soprava frio em seu rosto triste, mas não conseguia a menor reação dele. Ele olhava fixo para as folhas e intimamente se sentia como uma delas. A alegria foi para ele como a primavera foi para as folhas, trouxe uma vida nova, trouxe cor, mas, um dia, chegou o outono. O vento que tanto insiste em levar todas as folhas, amarelas e murchas, é como o pensamento de tudo chegar ao um fim em sua vida. Como as folhas, ele insistia em viver, mesmo sabendo que um dia ele se soltaria do galho que o liga a sua árvore e voaria livre com o vento.

Em sua Juventude, ele vivera entre as flores, melhor seria dizer que ele tinha para si a mais bela de todas a flores. A beleza dela era tamanha que o sol, com todo seu brilho, era ofuscado pela luz de seu sorriso. Olhar para ela era algo só comparado com a visão de um imenso campo florido, com as mais belas flores do mundo, debaixo de um céu azul e um sol radiante. Talvez não havia maneira de descrevê-la com palavras, mas se alguém olhasse nos olhos deste homem, quando este a tinha em foco, saberia dizer ou poderia sentir toda a magia que emanava dela enfim.

Ele a amou como nunca alguém havia antes. Ela era a sua vida. Era o ar que ele respirava, o coração que não batia, mas sussurrava em seu peito o seu nome, era cada pensamento, cada sonho, cada segundo de sua história. Ele a amava incondicionalmente, não sabia se ela o amava de verdade, mas o fato de vê-la ao seu lado, sorrindo, era já a retribuição de todo amor que ele sentia e que parecia crescer a cada dia, a cada segundo ou a cada sorriso. Seu amor perdeu todos os limites reais ou imaginários. 
Ela tinha nele alguém especial e seu amor, que ao mesmo tempo a encantava, também a assustava, pois por mais que tentasse não conseguia enxergar a dimensão de todo amor que recebia, mas era feliz por ter alguém tão especial ao seu lado.

Eles formavam o mais belo casal que o mundo um dia teve. Não pela a beleza física, mas pelo sentimento que era possível sentir quando estavam juntos. Era contagioso, como por onde passassem um rastro de corações perfumados ficavam para trás marcando seus caminhos. Tantos foram os lugares onde serviram de palco para que eles apresentassem o seu amor e outros tantos foram testemunhas de tanta entrega.

Mas como toda primavera não dura para sempre, a dele também não poderia durar. Ali, naquela mesma praça, também em uma tarde de outono eles marcaram de se encontrar. Ele chegou pontualmente adiantado, nunca haveria de deixa-la esperando um minuto sequer. Foi até o banco, o qual muitas vezes abrigou doces abraços, e se sentou para esperar pelo amor de sua vida. Pensou consigo:

“A esperaria por toda minha vida”.

Ela havia ido a um ponto mais afastado da cidade, com toda a sua família e voltava ansiosa para reencontrar aquele que a tanto amava. Pensava em todos os momentos que passaram juntos, tantos planos que fizeram e na saudade que apertava em seu peito. A distância que agora estava dele a fizera enxergar a dimensão do amor e estava louca para abraça-lo e dizer que era feliz porque agora sabe a dimensão de todo o sentimento que eles sentiam. Ela estava tão longe em seus pensamentos que não viu a hora que o carro perdeu o controle e caiu de uma ribanceira, direto para dentro de um lago. O destino deu seu toque trágico, ninguém se salvou.

Ele continuava na praça, sentado no banco, esperando por ela. Nem a fina chuva fora de época o fez arredar dali. Quando alguém chegou até ele para contar o ocorrido ele se recusou a acreditar. Continuo sentado ali por horas, por dias, até que suas forças físicas foram vencidas e ele caiu desfalecido. Ficou no hospital por dias. Não acompanhou o funeral, as homenagens e o último adeus. Permanecia no hospital olhando pela janela do quarto em direção à praça, como que se esperando alguém aparecer de repente e dizer que tudo foi um terrível pesadelo. Mas ninguém apareceu.

Os dias foram passando e ele, fielmente, sempre estava lá na praça, na hora marcada, sentado no banco, olhando para o infinito. Quando a primeira estrela brilhava no céu, ele a olhava fixamente como quem tentava reconhecer ou encontrar algo que se perdeu, ficava assim por alguns minutos e vai embora. As pessoas se comoviam com tanta dor, mas ninguém se sentia no direito de se intrometer e mesmo se tentassem ele não permitiria.

Outonos e mais outonos se passaram e o ritual se repetiu. A juventude, como sua alegria, também já foi embora e agora neste outono ele é como as folhas, cansadas e enrugadas. Nunca havia reparado nas folhas como reparou neste dia. Viu nelas toda sua persistência, mas também toda sua fragilidade.

O vento soprou mais forte e um cisco entrou em seus olhos. Com muita dificuldade ele conseguiu remover e abrir os olhos. Quando olhou para frente não podia acreditar no que seus olhos viam. A flor de todas as flores, o amor de sua vida estava a sua frente e com aquele sorriso que ofuscava o sol. Ela ainda estava jovem e ele ao passar as mãos nos olhos pensando estar delirando, viu que suas mãos também não estavam mais enrugadas e era jovem de novo. Não se contendo mais ele a enlaçou em seus braços e olhando dentro de seus olhos disse:

“Eu sempre soube que você viria”

E sorrindo ela lhe disse:

“E eu sempre soube que me esperaria, mas agora chegou a hora de irmos viver o nosso amor. Já não temos mais galhos que nos prendem à árvore. Agora vamos juntos para onde o vento nos levar”

E o vento soprou forte naquela tarde de outono e levou consigo as últimas folhas...


Cael Soares

Esperamos sempre por um milagre



Não existe uma pessoa neste mundão que pelo menos, em uma única vez, não tenha esperado por um milagre. Aquela informação que falta para responder uma pergunta em um prova, por aquele tempo a mais para chegar em um compromisso importante, por um trânsito melhor, pela saúde de um ou a volta de outro. Motivos para pedir, não faltam e também não falta fé. Seja São Judas Tadeu, Santo Expedito, Santa Edwiges, Preto Velho, Oxóssi, Ogum, Jesus, Buda ou Maomé.


Milagre, que no latim é "miraculum", quer dizer maravilha, coisa extraordinária. Seguindo este raciocínio, quantos milagres você é capaz de ver em sua vida? É maravilhoso um belo dia de primavera com suas flores, o sol brilhante e toda a alegria que esta estação nos oferece. É extraordinária a dedicação de uma mãe a seu filho e seu amor incondicional. É espetacular a capacidade de reinventar o mundo que as crianças tem. A cada dia estamos cercados de milagres sem ao menos nos darmos conta disso. Você domina uma, duas ou mais línguas; faz cálculos incríveis; entende sobre saúde, sobre as estrelas, sobre os animais. Já podemos voar, viajar sobre as águas e fazer vinho até onde já faltou até água. Nossa capacidade é infinita!

Não sou um herege e nem mesmo cético. Tenho a minha fé e muitos milagres em minha vida. Porém o que eu aprendi é que precisamos, sim!, buscar e não pedir por outros milagres. Que precisamos ser os protagonistas de nossas ações, rompendo sempre nossos limites e depois olhando para trás e para o lado reconhecendo que, ao lado dos outros, muitos milagres foram conquistados.

Não existe milagre que se peça para nossa vida, milagre é a própria vida.




Cael Soares

13/11/2013

Eu quero ser feliz agora



O mundo anda estranho, desde pequeno tenho comigo uma certeza que a manhã que chega é sempre uma nova oportunidade. Torcia pelo dia de sol para poder brincar na rua... torcia pela chuva para brincar na enxurrada, torcia pela noite para se brincar na lua e torcia pela impossível neve... Tudo era motivo de imaginar, mas principalmente de sonhar. Aos olhos de um sonhador tudo é admirável e potencialmente cheio de oportunidades. Plantávamos semente de girassol, pois gostávamos devê-lo acompanhar o sol, construíamos cidades em um pequeno alpendre, transformávamos uma praça em ginásio olímpico e imensas manilhas da Copasa em portais perigosos. Não tínhamos medo do futuro, apenas sonhos. Carrego comigo ainda hoje muito desse menino. É ele que me faz dizer não à chatice de ser completamente maduro, adulto de corpo e alma. Porém o mundo anda diferente, profetas pregando um futuro sombrio, pessoas torcem pela tragédia e pelo fracasso, os sonho estão sendo assassinados em cada esquina em cada casa. Será que as pessoas tem consciência do que estão semeando? Eu prefiro acreditar e sonhar, não sonhar e ficar parado, sonhar e concretizar. Ir superando as barreiras que se dizem impossíveis. Estipulando meus limites simplesmente para quebrá-los. Eu preciso me provar que ainda sou o mesmo menino, por isso continuo torcendo pela chuva, pelo sol, pela lua e pela neve. Tristeza não é uma opção para mim. Eu creio no meu futuro, porque eu que o construo. Não quero ser feliz apenas no amanhã, quero ser feliz agora.

Cael Soares
01/06/2014

Uma mãozinha


A cordialidade chegou ao fim? Será que a sociedade finalmente se isolou em castelos individuais? A mídia prega uma guerra por dia e o medo se espalha a cada notícia. Sera que o ato de ser humano morreu? Esta resposta é fácil de encontrar. Desligue a TV, feche o computador e veja as pessoas nas ruas. A cada segundo em algum lugar existe alguém em um ato de cordialidade. Duvida? feche seus olhos para aquilo que a mídia manda você vigiar e abra os olhos para o que o mundo e a sociedade quer compartilhar. Seja na esquina, no supermercado, na rua, em todo lugar existe uma pessoa com um potencial ilimitado para ser cordial ao outro. Ontem, eu tinha um compromisso e estava em cima da hora, porém avistei um opala antigo, bem estragado, que apagou o motor e não religava. Dentro havia uma família humilde. O opala estava muito empoeirado e os motorista dos carros atrás dele reclamavam pela obstrução da passagem. Fui ajudar. Ao mesmo tempo que eu ia, um rapaz com aparência de classe média, pois estava com roupa de marca e óculos de sol de marca, chegou junto comigo. Não dissemos nada um para o outro, apenas recomendamos ao senhor (Motorista) que voltasse ao volante e tentasse ligar na decida. Quando começamos a empurrar, outro rapaz, também branco veio sorridente empurrar também. Três homens brancos servindo de força motriz para uma família negra e pobre. Houve um certo estranhamento do motorista, porém não havia estranhamento em nós por isso, havia o sentimento de ajuda a quem precisa. Quando o carro chegou à decida o senhor coloca a mão para fora da janela com um sinal de positivo e de agradecimento. Cada um de nós foi para seu destino com a sensação de DEVER cumprido. Mas a sociedade dormiu o sonho dos justos essa noite. A cordialidade está viva!

Cael Soares

O que me faz grande


O que me faz grande?
Não são os meus 1,84 m de altura
Outros homens são maiores
E maior ainda é o mundo
Perdido neste imenso universo
Sou uma micro partícula
Uma poeira insignificante
insignificante não, em significância
em múltiplos significados
de muitos recebi um legado
e para outros o deixarei
por isso sou grande
mesmo sendo poeira cósmica
carrego o universo de sonhos dentro de mim.

Cael Soares
31.07.2002

Máscaras





The double secret
René Magritte

Estou cansado de ser o eu
que os outro querem que eu seja
Tantos espelhos de vidros ou de olhos
Me mostram uma cara que não é minha
Fracassei na vida
E sei que na morte não será diferente
Então tento me acostumar
Tento tolerar a minha sina...
Os outros eu não conheço mais
No medíocre papel que tentam encenar
Todos são péssimos atores
Maquiagem e fantasias não escondem
A pequenez de suas almas .
Os fingimentos são tão evidentes
E o grande circo da vida é decadente
No picadeiro todos são palhaços
Embora se sintam corajosos domadores
Mendigando a atenção de uma arquibancada vazia
E quando a luz do picadeiro se apaga
Tentamos tirar a tinta de nossos rostos
mas ela já é parte de nossa face
Alguns, resignados, nem percebem
Outros, em vão, usam máscaras
E eu estou muito cansado
Para inventar uma outra cara.

Cael Soares
18/04/2015

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Sobre o que eu sou


Gostaria saber me definir, talvez assim pouparia os problemas que causo ao buscar me definir no outro. Hoje sou mais como uma velha colcha de retalhos do que como apenas um homem. Tenho em mim retalhos formados por minhas lembranças, pois retalhado eu fui a cada dia, seja pelo esquecimento ou seja pela lembrança. Busco em cada desses retalhos o que julgo ter perdido no meio dessa colcha de minha vida. Encontros apenas pessoas e mais pessoas. Algumas formam grandes partes desta colcha que me engano às vezes ainda ser eu, mas percebo que mais a frente outros retalhos aparecem com outras lembranças e outras pessoas. A colcha pesa em minhas costas, mas não ouso retirar um retalho sequer, todos me são caros e dizem - na minha busca de uma melhor definição - o que sou. Pareço-me inconstante, por ter sido múltiplo, para quem se julga tão tímido na arte de costurar, ou seria conquistar? Nunca conquistei, o conquistado sempre fui eu, não o nego. O que carrego em enfim são bandeiras que hastearam em meu coração, território tão instável e perigoso, esse solo maldito que nada parece se enraizar. Porém, se não enraízam, porque enxergo agora flores em vez de retalhos? As lágrimas de minhas lembranças devem ter quebrado a dormência destes que não eram senão sementes. Meu coração renasce em um manto florido, harmonioso e perfumado que me transforma, que me forma e deforma. Talvez eu seja como esse - antes manto de retalho - agora jardim florido. Tenho minhas primaveras, meus verões, meus outonos e, infelizmente, meus invernos. Quisera eu deixar na memória de minha flores apenas as primaveras e os verões, porque os invernos carrego todos dentro de mim. Não sei o que eu sou... sou a alegria, sou a tristeza; sou a flor, sou o retalho; sou homem, sou o palhaço; sou a serenidade e sou a dor; às vezes eu me pergunto se não sou de todo o amor.

Cael Soares



sábado, 2 de junho de 2012

Prosa: Um conto quase erótico (2005)






Um homem sai do seu quarto em direção à cozinha para beber água. Ao passar pela porta da sala, que está fechada, ouve um barulho. Ele para e, quando se preparava para abri-la, ouve a voz de sua filha:

- Não, Roberto, eu não posso.

O homem solta a maçaneta e se aproxima mais da porta para ouvir melhor. Percebe que a filha está acompanhada do namorado, Roberto.
- Ah, meu amor, você sabe que já tem muito tempo que te peço isso.

O homem quase morre. Pensa em entrar pela sala e agarrar o pescoço daquele projeto de tarado. Antes, porém, prefere esperar a atitude da filha.
- Não! Não! E não. Eu não posso e não vou fazer isso.

- Mas amor, não é nada de mais, ninguém vai ficar sabendo. Além do mais, já estamos juntos a mais de seis meses e eu acho que já fiz por merecer.

- Cruz credo, Roberto. Parece que isso é mais importante que o nosso amor.

- Pode não ser mais importante, mas se você deixar, eu vou entender como uma grande prova de amor.

- Não faz isso, paixão. Se eu deixasse, como olharia para o meu pai depois. Ele acabaria descobrindo e não me perdoaria nunca.

Nesse instante o homem, cheio de orgulho, se acalma. Pegaria aquele fedelho em outra hora. "Se eu o pegasse agora" -pensou - "minha filha poderia achar que não confio nela". Continuou ouvindo o dialogo do casal.
- Olha, venho aqui quase toda semana e ficamos aqui na sala, sozinhos. É muita tentação para um mortal ficar vendo tudo isso e não poder fazer nada.

- Mas ninguém ainda o fez, você sabe. Meu pai me fez prometer que não daria antes, mas depois do casamento...

- Isso não é justo! Todo dia fico olhando e imaginando que será hoje. Mas sempre você diz que não. Acho até que você não me ama mais.

- Claro que amo, Roberto.

- Então deixa. Só com a pontinha da língua. Só para sentir o gosto. Fico imaginando como deve ser bom...

- Para com isso, Roberto.

O homem, do outro lado da porta, pensa que, se não fosse a sua filha, era de se louvar a insistência do rapaz.

- Deixa pelo menos sentir o cheiro.

- Só cheirar ?

- Só.

- Você jura que não vai tentar fazer mais nada?

- Juro.

- Nem tentar dar uma lambidinha?

- Juro! Pode confiar em mim.

- Então espera. Vou abrir devagar e quando eu falar pronto você vem e cheira. Tudo bem?

- Claro, amor. Como você quiser.

- Pronto, não tente nenhuma gracinha...

Nessa hora o homem abre a porta e gritando “eu te mato, safado” , desacorda o rapaz com um soco certeiro. Ainda bufando olha para filha, sentada no sofá, assustada, segurando em uma mão a garrafa de Whisky que ele trouxe de sua viagem à Escócia e na outra sua tampa com o lacre rompido.


Cael Soares

Poema: Universo (2005)



Eis um homem
Um homem do mundo
Um mundo de fôrmas* 
Diz formas
Disforma
mundo, homem, eu
elipses, curvas, planetas
um sistema
uma estrela, mas são tantas
Galáxias, dimensões
Tanto espaço para poucos
Sem Terra
resta a lua
Falta rua
Falta verso
Sobra universo


(*acento intencional)