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sexta-feira, 31 de julho de 2015

A espera de uma vida



Em uma certa tarde de outono, as folhas das árvores, já sem aquele verde que coloria a paisagem, brigavam contra o vento para se sustentarem nos galhos, se mantendo ligadas à árvore e assim, ainda, fazendo parte de algo, fazendo parte da vida.

Assistindo a toda aquela luta das folhas contra o impiedoso vento, estava um homem, sentado em um banco da praça, em frente às árvores. O vento soprava frio em seu rosto triste, mas não conseguia a menor reação dele. Ele olhava fixo para as folhas e intimamente se sentia como uma delas. A alegria foi para ele como a primavera foi para as folhas, trouxe uma vida nova, trouxe cor, mas, um dia, chegou o outono. O vento que tanto insiste em levar todas as folhas, amarelas e murchas, é como o pensamento de tudo chegar ao um fim em sua vida. Como as folhas, ele insistia em viver, mesmo sabendo que um dia ele se soltaria do galho que o liga a sua árvore e voaria livre com o vento.

Em sua Juventude, ele vivera entre as flores, melhor seria dizer que ele tinha para si a mais bela de todas a flores. A beleza dela era tamanha que o sol, com todo seu brilho, era ofuscado pela luz de seu sorriso. Olhar para ela era algo só comparado com a visão de um imenso campo florido, com as mais belas flores do mundo, debaixo de um céu azul e um sol radiante. Talvez não havia maneira de descrevê-la com palavras, mas se alguém olhasse nos olhos deste homem, quando este a tinha em foco, saberia dizer ou poderia sentir toda a magia que emanava dela enfim.

Ele a amou como nunca alguém havia antes. Ela era a sua vida. Era o ar que ele respirava, o coração que não batia, mas sussurrava em seu peito o seu nome, era cada pensamento, cada sonho, cada segundo de sua história. Ele a amava incondicionalmente, não sabia se ela o amava de verdade, mas o fato de vê-la ao seu lado, sorrindo, era já a retribuição de todo amor que ele sentia e que parecia crescer a cada dia, a cada segundo ou a cada sorriso. Seu amor perdeu todos os limites reais ou imaginários. 
Ela tinha nele alguém especial e seu amor, que ao mesmo tempo a encantava, também a assustava, pois por mais que tentasse não conseguia enxergar a dimensão de todo amor que recebia, mas era feliz por ter alguém tão especial ao seu lado.

Eles formavam o mais belo casal que o mundo um dia teve. Não pela a beleza física, mas pelo sentimento que era possível sentir quando estavam juntos. Era contagioso, como por onde passassem um rastro de corações perfumados ficavam para trás marcando seus caminhos. Tantos foram os lugares onde serviram de palco para que eles apresentassem o seu amor e outros tantos foram testemunhas de tanta entrega.

Mas como toda primavera não dura para sempre, a dele também não poderia durar. Ali, naquela mesma praça, também em uma tarde de outono eles marcaram de se encontrar. Ele chegou pontualmente adiantado, nunca haveria de deixa-la esperando um minuto sequer. Foi até o banco, o qual muitas vezes abrigou doces abraços, e se sentou para esperar pelo amor de sua vida. Pensou consigo:

“A esperaria por toda minha vida”.

Ela havia ido a um ponto mais afastado da cidade, com toda a sua família e voltava ansiosa para reencontrar aquele que a tanto amava. Pensava em todos os momentos que passaram juntos, tantos planos que fizeram e na saudade que apertava em seu peito. A distância que agora estava dele a fizera enxergar a dimensão do amor e estava louca para abraça-lo e dizer que era feliz porque agora sabe a dimensão de todo o sentimento que eles sentiam. Ela estava tão longe em seus pensamentos que não viu a hora que o carro perdeu o controle e caiu de uma ribanceira, direto para dentro de um lago. O destino deu seu toque trágico, ninguém se salvou.

Ele continuava na praça, sentado no banco, esperando por ela. Nem a fina chuva fora de época o fez arredar dali. Quando alguém chegou até ele para contar o ocorrido ele se recusou a acreditar. Continuo sentado ali por horas, por dias, até que suas forças físicas foram vencidas e ele caiu desfalecido. Ficou no hospital por dias. Não acompanhou o funeral, as homenagens e o último adeus. Permanecia no hospital olhando pela janela do quarto em direção à praça, como que se esperando alguém aparecer de repente e dizer que tudo foi um terrível pesadelo. Mas ninguém apareceu.

Os dias foram passando e ele, fielmente, sempre estava lá na praça, na hora marcada, sentado no banco, olhando para o infinito. Quando a primeira estrela brilhava no céu, ele a olhava fixamente como quem tentava reconhecer ou encontrar algo que se perdeu, ficava assim por alguns minutos e vai embora. As pessoas se comoviam com tanta dor, mas ninguém se sentia no direito de se intrometer e mesmo se tentassem ele não permitiria.

Outonos e mais outonos se passaram e o ritual se repetiu. A juventude, como sua alegria, também já foi embora e agora neste outono ele é como as folhas, cansadas e enrugadas. Nunca havia reparado nas folhas como reparou neste dia. Viu nelas toda sua persistência, mas também toda sua fragilidade.

O vento soprou mais forte e um cisco entrou em seus olhos. Com muita dificuldade ele conseguiu remover e abrir os olhos. Quando olhou para frente não podia acreditar no que seus olhos viam. A flor de todas as flores, o amor de sua vida estava a sua frente e com aquele sorriso que ofuscava o sol. Ela ainda estava jovem e ele ao passar as mãos nos olhos pensando estar delirando, viu que suas mãos também não estavam mais enrugadas e era jovem de novo. Não se contendo mais ele a enlaçou em seus braços e olhando dentro de seus olhos disse:

“Eu sempre soube que você viria”

E sorrindo ela lhe disse:

“E eu sempre soube que me esperaria, mas agora chegou a hora de irmos viver o nosso amor. Já não temos mais galhos que nos prendem à árvore. Agora vamos juntos para onde o vento nos levar”

E o vento soprou forte naquela tarde de outono e levou consigo as últimas folhas...


Cael Soares

Máscaras





The double secret
René Magritte

Estou cansado de ser o eu
que os outro querem que eu seja
Tantos espelhos de vidros ou de olhos
Me mostram uma cara que não é minha
Fracassei na vida
E sei que na morte não será diferente
Então tento me acostumar
Tento tolerar a minha sina...
Os outros eu não conheço mais
No medíocre papel que tentam encenar
Todos são péssimos atores
Maquiagem e fantasias não escondem
A pequenez de suas almas .
Os fingimentos são tão evidentes
E o grande circo da vida é decadente
No picadeiro todos são palhaços
Embora se sintam corajosos domadores
Mendigando a atenção de uma arquibancada vazia
E quando a luz do picadeiro se apaga
Tentamos tirar a tinta de nossos rostos
mas ela já é parte de nossa face
Alguns, resignados, nem percebem
Outros, em vão, usam máscaras
E eu estou muito cansado
Para inventar uma outra cara.

Cael Soares
18/04/2015

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Sobre o que eu sou


Gostaria saber me definir, talvez assim pouparia os problemas que causo ao buscar me definir no outro. Hoje sou mais como uma velha colcha de retalhos do que como apenas um homem. Tenho em mim retalhos formados por minhas lembranças, pois retalhado eu fui a cada dia, seja pelo esquecimento ou seja pela lembrança. Busco em cada desses retalhos o que julgo ter perdido no meio dessa colcha de minha vida. Encontros apenas pessoas e mais pessoas. Algumas formam grandes partes desta colcha que me engano às vezes ainda ser eu, mas percebo que mais a frente outros retalhos aparecem com outras lembranças e outras pessoas. A colcha pesa em minhas costas, mas não ouso retirar um retalho sequer, todos me são caros e dizem - na minha busca de uma melhor definição - o que sou. Pareço-me inconstante, por ter sido múltiplo, para quem se julga tão tímido na arte de costurar, ou seria conquistar? Nunca conquistei, o conquistado sempre fui eu, não o nego. O que carrego em enfim são bandeiras que hastearam em meu coração, território tão instável e perigoso, esse solo maldito que nada parece se enraizar. Porém, se não enraízam, porque enxergo agora flores em vez de retalhos? As lágrimas de minhas lembranças devem ter quebrado a dormência destes que não eram senão sementes. Meu coração renasce em um manto florido, harmonioso e perfumado que me transforma, que me forma e deforma. Talvez eu seja como esse - antes manto de retalho - agora jardim florido. Tenho minhas primaveras, meus verões, meus outonos e, infelizmente, meus invernos. Quisera eu deixar na memória de minha flores apenas as primaveras e os verões, porque os invernos carrego todos dentro de mim. Não sei o que eu sou... sou a alegria, sou a tristeza; sou a flor, sou o retalho; sou homem, sou o palhaço; sou a serenidade e sou a dor; às vezes eu me pergunto se não sou de todo o amor.

Cael Soares



sábado, 2 de junho de 2012

Prosa: Um conto quase erótico (2005)






Um homem sai do seu quarto em direção à cozinha para beber água. Ao passar pela porta da sala, que está fechada, ouve um barulho. Ele para e, quando se preparava para abri-la, ouve a voz de sua filha:

- Não, Roberto, eu não posso.

O homem solta a maçaneta e se aproxima mais da porta para ouvir melhor. Percebe que a filha está acompanhada do namorado, Roberto.
- Ah, meu amor, você sabe que já tem muito tempo que te peço isso.

O homem quase morre. Pensa em entrar pela sala e agarrar o pescoço daquele projeto de tarado. Antes, porém, prefere esperar a atitude da filha.
- Não! Não! E não. Eu não posso e não vou fazer isso.

- Mas amor, não é nada de mais, ninguém vai ficar sabendo. Além do mais, já estamos juntos a mais de seis meses e eu acho que já fiz por merecer.

- Cruz credo, Roberto. Parece que isso é mais importante que o nosso amor.

- Pode não ser mais importante, mas se você deixar, eu vou entender como uma grande prova de amor.

- Não faz isso, paixão. Se eu deixasse, como olharia para o meu pai depois. Ele acabaria descobrindo e não me perdoaria nunca.

Nesse instante o homem, cheio de orgulho, se acalma. Pegaria aquele fedelho em outra hora. "Se eu o pegasse agora" -pensou - "minha filha poderia achar que não confio nela". Continuou ouvindo o dialogo do casal.
- Olha, venho aqui quase toda semana e ficamos aqui na sala, sozinhos. É muita tentação para um mortal ficar vendo tudo isso e não poder fazer nada.

- Mas ninguém ainda o fez, você sabe. Meu pai me fez prometer que não daria antes, mas depois do casamento...

- Isso não é justo! Todo dia fico olhando e imaginando que será hoje. Mas sempre você diz que não. Acho até que você não me ama mais.

- Claro que amo, Roberto.

- Então deixa. Só com a pontinha da língua. Só para sentir o gosto. Fico imaginando como deve ser bom...

- Para com isso, Roberto.

O homem, do outro lado da porta, pensa que, se não fosse a sua filha, era de se louvar a insistência do rapaz.

- Deixa pelo menos sentir o cheiro.

- Só cheirar ?

- Só.

- Você jura que não vai tentar fazer mais nada?

- Juro.

- Nem tentar dar uma lambidinha?

- Juro! Pode confiar em mim.

- Então espera. Vou abrir devagar e quando eu falar pronto você vem e cheira. Tudo bem?

- Claro, amor. Como você quiser.

- Pronto, não tente nenhuma gracinha...

Nessa hora o homem abre a porta e gritando “eu te mato, safado” , desacorda o rapaz com um soco certeiro. Ainda bufando olha para filha, sentada no sofá, assustada, segurando em uma mão a garrafa de Whisky que ele trouxe de sua viagem à Escócia e na outra sua tampa com o lacre rompido.


Cael Soares