sexta-feira, 31 de julho de 2015

O que me faz grande


O que me faz grande?
Não são os meus 1,84 m de altura
Outros homens são maiores
E maior ainda é o mundo
Perdido neste imenso universo
Sou uma micro partícula
Uma poeira insignificante
insignificante não, em significância
em múltiplos significados
de muitos recebi um legado
e para outros o deixarei
por isso sou grande
mesmo sendo poeira cósmica
carrego o universo de sonhos dentro de mim.

Cael Soares
31.07.2002

Máscaras





The double secret
René Magritte

Estou cansado de ser o eu
que os outro querem que eu seja
Tantos espelhos de vidros ou de olhos
Me mostram uma cara que não é minha
Fracassei na vida
E sei que na morte não será diferente
Então tento me acostumar
Tento tolerar a minha sina...
Os outros eu não conheço mais
No medíocre papel que tentam encenar
Todos são péssimos atores
Maquiagem e fantasias não escondem
A pequenez de suas almas .
Os fingimentos são tão evidentes
E o grande circo da vida é decadente
No picadeiro todos são palhaços
Embora se sintam corajosos domadores
Mendigando a atenção de uma arquibancada vazia
E quando a luz do picadeiro se apaga
Tentamos tirar a tinta de nossos rostos
mas ela já é parte de nossa face
Alguns, resignados, nem percebem
Outros, em vão, usam máscaras
E eu estou muito cansado
Para inventar uma outra cara.

Cael Soares
18/04/2015

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Sobre o que eu sou


Gostaria saber me definir, talvez assim pouparia os problemas que causo ao buscar me definir no outro. Hoje sou mais como uma velha colcha de retalhos do que como apenas um homem. Tenho em mim retalhos formados por minhas lembranças, pois retalhado eu fui a cada dia, seja pelo esquecimento ou seja pela lembrança. Busco em cada desses retalhos o que julgo ter perdido no meio dessa colcha de minha vida. Encontros apenas pessoas e mais pessoas. Algumas formam grandes partes desta colcha que me engano às vezes ainda ser eu, mas percebo que mais a frente outros retalhos aparecem com outras lembranças e outras pessoas. A colcha pesa em minhas costas, mas não ouso retirar um retalho sequer, todos me são caros e dizem - na minha busca de uma melhor definição - o que sou. Pareço-me inconstante, por ter sido múltiplo, para quem se julga tão tímido na arte de costurar, ou seria conquistar? Nunca conquistei, o conquistado sempre fui eu, não o nego. O que carrego em enfim são bandeiras que hastearam em meu coração, território tão instável e perigoso, esse solo maldito que nada parece se enraizar. Porém, se não enraízam, porque enxergo agora flores em vez de retalhos? As lágrimas de minhas lembranças devem ter quebrado a dormência destes que não eram senão sementes. Meu coração renasce em um manto florido, harmonioso e perfumado que me transforma, que me forma e deforma. Talvez eu seja como esse - antes manto de retalho - agora jardim florido. Tenho minhas primaveras, meus verões, meus outonos e, infelizmente, meus invernos. Quisera eu deixar na memória de minha flores apenas as primaveras e os verões, porque os invernos carrego todos dentro de mim. Não sei o que eu sou... sou a alegria, sou a tristeza; sou a flor, sou o retalho; sou homem, sou o palhaço; sou a serenidade e sou a dor; às vezes eu me pergunto se não sou de todo o amor.

Cael Soares



sábado, 2 de junho de 2012

Prosa: Um conto quase erótico (2005)






Um homem sai do seu quarto em direção à cozinha para beber água. Ao passar pela porta da sala, que está fechada, ouve um barulho. Ele para e, quando se preparava para abri-la, ouve a voz de sua filha:

- Não, Roberto, eu não posso.

O homem solta a maçaneta e se aproxima mais da porta para ouvir melhor. Percebe que a filha está acompanhada do namorado, Roberto.
- Ah, meu amor, você sabe que já tem muito tempo que te peço isso.

O homem quase morre. Pensa em entrar pela sala e agarrar o pescoço daquele projeto de tarado. Antes, porém, prefere esperar a atitude da filha.
- Não! Não! E não. Eu não posso e não vou fazer isso.

- Mas amor, não é nada de mais, ninguém vai ficar sabendo. Além do mais, já estamos juntos a mais de seis meses e eu acho que já fiz por merecer.

- Cruz credo, Roberto. Parece que isso é mais importante que o nosso amor.

- Pode não ser mais importante, mas se você deixar, eu vou entender como uma grande prova de amor.

- Não faz isso, paixão. Se eu deixasse, como olharia para o meu pai depois. Ele acabaria descobrindo e não me perdoaria nunca.

Nesse instante o homem, cheio de orgulho, se acalma. Pegaria aquele fedelho em outra hora. "Se eu o pegasse agora" -pensou - "minha filha poderia achar que não confio nela". Continuou ouvindo o dialogo do casal.
- Olha, venho aqui quase toda semana e ficamos aqui na sala, sozinhos. É muita tentação para um mortal ficar vendo tudo isso e não poder fazer nada.

- Mas ninguém ainda o fez, você sabe. Meu pai me fez prometer que não daria antes, mas depois do casamento...

- Isso não é justo! Todo dia fico olhando e imaginando que será hoje. Mas sempre você diz que não. Acho até que você não me ama mais.

- Claro que amo, Roberto.

- Então deixa. Só com a pontinha da língua. Só para sentir o gosto. Fico imaginando como deve ser bom...

- Para com isso, Roberto.

O homem, do outro lado da porta, pensa que, se não fosse a sua filha, era de se louvar a insistência do rapaz.

- Deixa pelo menos sentir o cheiro.

- Só cheirar ?

- Só.

- Você jura que não vai tentar fazer mais nada?

- Juro.

- Nem tentar dar uma lambidinha?

- Juro! Pode confiar em mim.

- Então espera. Vou abrir devagar e quando eu falar pronto você vem e cheira. Tudo bem?

- Claro, amor. Como você quiser.

- Pronto, não tente nenhuma gracinha...

Nessa hora o homem abre a porta e gritando “eu te mato, safado” , desacorda o rapaz com um soco certeiro. Ainda bufando olha para filha, sentada no sofá, assustada, segurando em uma mão a garrafa de Whisky que ele trouxe de sua viagem à Escócia e na outra sua tampa com o lacre rompido.


Cael Soares

Poema: Universo (2005)



Eis um homem
Um homem do mundo
Um mundo de fôrmas* 
Diz formas
Disforma
mundo, homem, eu
elipses, curvas, planetas
um sistema
uma estrela, mas são tantas
Galáxias, dimensões
Tanto espaço para poucos
Sem Terra
resta a lua
Falta rua
Falta verso
Sobra universo


(*acento intencional)

Prosa: Um sonho no apocalipse (2004)



O primeiro dos mensageiros chegou sem a menor discrição. Rasgou o céu, daquela noite de outubro, como um raio. Era uma estrela vacilante que passou do esplendor à obscuridade numa fração de segundo, trazendo consigo tantas lágrimas e a tristeza de mil viúvas. A cidade era banhada pela chuva.

O segundo mensageiro arrastou consigo folhas, galhos, árvores e telhados. Era forte, porém de uma leveza extraordinária. Ele era o bailarino do tormento. Seu nome, todos sabiam, era o vento.

O terceiro chegou sorrateiro. Não fez barulho e ninguém o viu. Tomou logo conta de todas as almas e posse de todos os segredos. E este se anunciou: - Eu sou o medo.

O mensageiro seguinte veio no rastro dos outros três. Trouxe o desespero e ao medo deu a sua mão. tomou conta de tudo, ele era a escuridão.

Então o senhor supremo avançou pelo céu invadindo cada prédio. Nada se podia ouvir, ele era o Tédio. Seus cavaleiros, aos pares, marchavam em trote de guerra, seguiam em comitiva na cavalgada final sobre a Terra.

Assistindo a tudo isso, um homem fumava na janela de seu edifício. Sem energia elétrica, olhando para a televisão apagada, ele dá uma boa tragada no cigarro, fecha a janela e sem poder fazer nada, volta a dormir.

Poema: O meu pecado (2004)





O meu pecado não foi obra do acaso. Plano meticuloso, estudo aprofundado e trabalho árduo. Falhas não cabiam em uma engenharia tão complexa e exata. A perfeição sugeria um caprichoso milagre, mas não procurava remissão ou qualquer tipo de alento. Era e seria sempre um pecado, o meu pecado.


A robustez de sua estrutura era agressiva. Retas, semi-retas, curvas e ângulos desenhavam o inimaginável. A gravidade agia sobre sua consistência e o peso tornava-se insuportável. 

Mas, como o peso do mármore se dissolve pela suavidade da artista, a engenharia do meu ser fez a máquina do meu pecado funcionar. No calor latente de mil turbinas e no vendaval de hélices a girar, o meu pecado flutuou na brisa e com ele, subi ao céu. 

O meu pecado me fez mais leve que o ar.